MENSAJES de APERTURA:
Fray Nestor Inacio Schwerz ofm
Minha saudação fraterna e cordial aos caríssimos irmãos e irmãs aqui presentes: aos irmãos ministros, aos irmãos das diferentes Entidades de AL e Caribe, aos irmãos e irmãs leigos, às irmãs religiosas, aos irmãos da Cúria geral OFM, aos irmãos que vierem da Europa, seja da MZF (uma das patrocinadoras deste evento), seja de Províncias-mães de Entidades-filhas na AL e Caribe. E ainda estamos esperando outros irmãos que virão, sobretudo nosso Ministro geral.
Em nome da SGEM, quero expressar em primeiro lugar a alegria pela acolhida do convite a participar deste Congresso, da parte de vocês e das suas Entidades. Isto muito nos alegra porque não houve uma particular autoridade que convocou para este Encontro. A proposta de realização deste evento nasceu de dentro dos organismos de animação da nossa vida e missão como Frades Menores aqui em AL e Caribe e em âmbito de Ordem. A UCLAF é organismo de animação da nossa vida fraterna e da nossa missão
O segundo motivo de alegria que quero expressar é a experiência de colaboração, de parceria na preparação, organização e realização deste Congresso. Trabalhamos conjuntamente: UCLAF, SGEM, Definidores gerais pela AL, com apoio do Centro de Animação Missionária de Bonn, Alemanha, e algumas Províncias da Alemanha, com apoio do Ministro geral e seu Definitório. Pela UCLAF, os Presidentes das Conferências ajudaram no encaminhamento inicial. Depois, cada Conferência indicou seu Delegado para formar a Coordenação geral do Congresso. Do momento em que foi decidido que o Congresso seria no Cone Sul, os Ministros e o Presidente desta Conferência, Frei Luis Scozzina, se empenharam com todas as forças para a boa preparação e organização do evento. Frei Eugênio Ortiz, o popular Pepo, foi o coordenador executivo de todo o processo de preparação, envolvendo muitos frades e muitas pessoas. E aqui estamos como Assembléia bem diversificada: Ministros provinciais, Definidores gerais e provinciais, o Diretor do Escritório de JPIC em Roma, o Presidente da Comissão para o Diálogo, nós da SGEM com o Moderador geral para as missões e o Animador geral para a Pastoral Educativa, o presidente da MZF, Secretários de Evangelização, Moderadores para as missões, Secretários de formação, frades de Centros de Estudos, frades missionários, frades envolvidos em diferentes formas de evangelização, representantes de Províncias-mães com Entidades-filhas neste Continente, pessoas leigas e Irmãs franciscanas comprometidas conosco em diferentes presenças evangelizadoras e virá ainda o Ministro geral Fr. José Carballo. Quero acentuar a riqueza da colaboração, da parceria em diferentes niveis e a riqueza da diversidade.
Os objetivos deste nosso Congresso querem fazer ocupar-nos com nossa vocação missionária e evangelizadora na Igreja e na realidade do Continente latinoamericano e caribenho, mas também com a consciência de fraternidade universal. Nós, Frades Menores, e toda a Família Franciscana temos uma bela e gloriosa história de missão e evangelização nestas terras e em meio a estes povos de América Latina e Caribe. Durante essa história de 500 anos recebemos muitos missionários e missionárias de diferentes partes, especialmente da Europa e da América do Norte. Neste Congresso, queremos beber um pouco da riqueza de experiências missionárias e evangelizadoras presentes na nossa memória histórica, seja do passado mais longínquo, seja das últimas décadas. Nem sempre se trata de experiências exitosas. Precisamos aprender também dos limites e das crises.
Os tempos atuais são particularmente desafiadores para a nossa missão evangelizadora na Igreja e junto com a Igreja
De modo muito particular, queremos reavivar, despertar nossa vocação específica missionária ad gentes, seja no contexto de nosso Continente diante de realidades que exigem tipicamente presença missionária ad gentes, seja em âmbito de Fraternidade universal em solidariedade para com as missões de nossa Ordem. É decisivo crescer em consciência e em ardor missionário para o bem de nosso próprio futuro e para maior eficácia no serviço ao Reino. Este ardor missionário animar nossas diferentes presenças: paróquias, escolas, santuários, Fraternidades inseridas... O dinamismo missionário e evangelizador faz parte do DNA de nossa vocação, de nosso carisma.
Não nos faltam reflexões. Nestas últimas décadas acumulamos imensa riqueza de reflexões sobre nossa vocação evangelizadora e missionária, inclusive com eventos importantes de nossa Ordem aqui em AL e Caribe. Também não nos faltam estímulos e orientações por parte da Igreja aqui
Que a Santissima Trindade, fonte da nossa missão, nos abençoe! Que Maria Santissima, com seus diferentes nomes em nossos povos, Estrela da Evangelização, nos acompanhe! S. Francisco e Sta. Clara intercedam por nós! Bom Congresso para todos nós!
Cordoba, 14-04-2008
Fr. Luis Antonio Scozzina (Presidente del Cono Sur)
O protagonismo dos Franciscanos na Evangelização no Brasil antes dos jesuítas:
a experiência de Laguna
1. Introdução
Evangelização franciscana no Brasil: uma história ainda a ser contada
Quando o assunto é religiosos no Brasil colônia, os primeiros a serem lembrados são os jesuítas. Tal fato se deve, em grande parte, ao desconhecimento dos fatos históricos envolvendo o Brasil neste período. Os manuais e livros didáticos que tratam do tema repetem, com freqüência, um estereótipo, silenciando sobre o protagonismo dos franciscanos e outros religiosos, exaltando a atuação dos jesuítas. Os padres de Santo Inácio de fato marcaram a história do Brasil, não apenas na área religiosa, mas também política, econômica, e, principalmente, no campo educacional, nos mais de duzentos anos de presença no país, até a expulsão pelo Marquês de Pombal, em 1759. Os jesuítas, pela potência que eram, se impuseram enquanto presença nos maiores centros, com homens preparados intelectual e espiritualmente, enviando para o Brasil seus melhores quadros. Sua expulsão abre uma imensa lacuna no campo da educação, na assistência religiosa, no trabalho com os índios, lacuna que nenhuma instituição religiosa presente no Brasil estava em condições de preencher.
Apesar da importância da atuação dos jesuítas, não se pode negar o papel de protagonistas desempenhado também pelos franciscanos na história da evangelização do Brasil. Basta recordar o fato histórico de que os franciscanos foram os primeiros religiosos europeus a colocar os pés em terras brasileiras. A primeira missa celebrada no Brasil foi oficiada por um franciscano, frei Henrique de Coimbra, que veio na esquadra de Pedro Álvares Cabral, aportando nas “Terras de Santa Cruz”, em abril de 1500. Os primeiros jesuítas chegariam quase cinqüenta anos depois.
Embora os jesuítas tenham sido os primeiros religiosos oficialmente enviados para trabalhar no Brasil, em 1549, os franciscanos estão presentes e atuantes já bem antes disso, numa presença extra-oficial, esporádica e esparsa, mas não menos rica, evangélica e frutuosa. Temos relatos de vários frades presentes no litoral, de 1503 até 1584. Tendo escapado de algum naufrágio, ou numa escala da viagem, dirigindo-se para a região do Rio da Prata ou para a Ásia, os religiosos franciscanos aproveitavam para evangelizar os indígenas e colonos, nas aldeias e vilas por onde passavam. O primeiro grupo de franciscanos oficialmente enviados pela coroa portuguesa vai desembarcar no Brasil em 1584.
Os missionários jesuítas tinham por obrigação escrever as crônicas e relatos de suas atividades na missão, que eram periodicamente, enviados a Portugal e Roma. Por isso estamos relativamente bem informados sobre sua atuação nos 210 anos de presença na colônia portuguesa. Os franciscanos, ao contrário, não tinham o hábito de escrever sobre suas atividades, ao menos no Brasil. O raro material que se conserva nos arquivos foram produzidos pelas autoridades, como provinciais, guardiães e definidores. Mesmo assim, alguma coisa se conserva, principalmente nos arquivos europeus. Como verdadeiras jóias preciosas, estes relatos transmitem para a posteridade pequenos restos de memória da história da evangelização franciscana no Brasil. Através deles é possível, mesmo que fragmentariamente, reconstituir parte desta história.
2. A carta de frei Bernardo de Armenta
Nesta exposição vamos estudar um documento que nos relata um momento importante da história da evangelização do Brasil. Através dele poderemos conhecer o espírito que animava os missionários franciscanos que se dirigiam para aquelas terras há pouco descobertas. Ao mesmo tempo, a análise do documento pode nos ajudar a conhecer o método desenvolvido por esses missionários, seus projetos, suas opções, seus sonhos. O documento em questão já foi objeto de análise de alguns estudiosos, nos seus elementos filológicos, históricos, cronológicos, etc. Não vou entrar em “questões disputadas” específicas das ciências históricas, pois este não é o fórum para isso. Escolhi este documento como objeto de estudo neste Congresso, porque acredito tratar-se de um testemunho histórico coerente, fidedigno e autorizado de um modo específico de evangelizar, concretizado no século XVII pelos franciscanos no Brasil. Acredito que a análise deste documento e do contexto onde foi gerado, podem iluminar o presente de nossa atuação missionária e evangelizadora.
Para situar este documento no seu contexto histórico, político, religioso, inicio com uma breve introdução sobre a realidade do Brasil, nos primeiros 50 anos da chegada dos portugueses, passando a seguir à análise do documento.
A chegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil, e os relatos que os pioneiros fizeram sobre as novas terras descobertas, não despertaram maiores interesses de Portugal. A principal preocupação era saber se nas terras descobertas existia ouro. Como as primeiras explorações resultaram negativas, não houve nenhuma preocupação em ocupar as terras. Apenas aventureiros, piratas, náufragos, traficantes de índios, vez por outra aportavam nas costas do Brasil. Foram fundadas algumas “feitorias”, postos em lugares estratégicos, cujo único comércio consistia na exploração das riquezas naturais, peles de animais, e principalmente o pau de tinta “vermelha como brasa”, denominado por isso pau-brasil. Também eram mandados ao Brasil os condenados pela justiça, “degredados” que eram deixados na praia para serem devorados pelos índios ou morrerem à mingua. Somente a partir de 1520 Portugal começa a se interessar pelas terras, na esperança de conseguir meios para diminuir suas dificuldades financeiras. Em 1526 alguns navios franceses são afundados no litoral da Bahia. Piratas e corsários ingleses, franceses e holandeses infestam as costas do país. Portugal decide então ocupa-lo mais sistematicamente. Em 1532 é fundada a primeira cidade, S. Vicente, no litoral sul, de onde saíram as expedições que, em 1551, unindo índios, colonos e jesuítas, iriam fundar a cidade de São Paulo.
A primeira experiência mais organizada de evangelização franciscana de que temos notícia no Brasil deu-se entre 1538 e 1548, no litoral de Santa Catarina, na localidade denominada Laguna (Mbiaça), entre os índios carijós.
Em 1537 zarpava da Espanha em direção ao Paraguai a frota de Alonso Cabrera. Cinco frades franciscanos faziam parte da expedição: frei Bernardo de Armenta (de Córdoba, Espanha), superior do grupo, frei Alonso Lebrón (das Ilhas Canárias) e outros três frades dos quais não conhecemos os nomes. A expedição, após várias tentativas, não conseguindo entrar pelo Rio da Prata, foi parar nas costas do litoral catarinense, “ao porto ou rio de São Francisco, anteriormente chamado de D. Rodrigo”, na atual cidade de Laguna, no Estado de Santa Catarina.[1] Alguns meses depois da chegada, a 1o. de maio de 1538, o chefe da missão, frei Bernardo de Armenta, escrevia a João Bernal Dias de Lugo, do Conselho das Índias Espanholas, descrevendo os fatos que os levaram até ali, e relatando o trabalho missionário iniciado. Uma cópia da carta foi enviada a Sevilha. Dali seguiu ao México, onde frei Toribio Motolinia fez uma cópia, e enviou o original de volta à Espanha. Frei Jerônimo de Mendieta a incluiu no Livro IV da sua “História Eclesiástica Indiana”.[2]
Frei Bernardo escreve entusiasmado com o sucesso da missão improvisada. Esta fora obra da providência. Um índio de nome Etiguara, uns quatro anos antes profetizara a vinda de verdadeiros cristãos, “irmãos dos discípulos do Apóstolo São Tomé, e haveriam de batizar a todos”. Frei Bernardo, a quem os índios começavam a chamar de “Payçumé” (São Tomé), escreve pedindo também mais frades para trabalhar com os índios, pois previa que teriam muitos frutos. O frade diz que deu à sua “Província” o nome de “Província de Jesus”.
Em julho de 1538 três dos cinco frades seguem para Buenos Aires com Alonso Cabrera. Fr. Bernardo e frei Alonso Lebrón se recusam a acompanhá-lo. Em Laguna os dois frades fundam um “recolhimento” para as mulheres e outro para os homens, onde é ensinada a doutrina cristã, ao mesmo tempo em que percorrem as aldeias vizinhas.
Em resposta à carta do frade, o rei da Espanha escrevia em 8 de novembro de 1539 ao Ministro Provincial da Província da Andaluzia, mandando que fossem enviados, “para o Rio da Prata seis religiosos seus, a fim de se associarem a frei Bernardo de Armenta, vigário provincial, que reside naquela província da Prata”. A nau foi enviada, chefiada por Alvar Nuñes Cabeza de Vaca, um dos mais ilustres exploradores daqueles tempos, mas não trouxe nenhum frade, a não ser seis ou nove clérigos.[3]
3. Os frades e Cabeza de Vaca
Quando os frades chegaram ao litoral catarinense, Alonso Cabrera, capitão da expedição que os levou, quis obrigá-los a seguir com ele para o interior do território espanhol (Buenos Aires). Frei Bernardo se negou, argumentando que “... não a tendes sobre mim, nem sobre os frades que vão comigo, (mando e jurisdição), pois nem a Sua Majestade nos enviou nem fomos socorridos, na sede, com água da fazenda do Rei, pois os trouxe com o nosso próprio trabalho e suor. Ninguém pode me impedir de pôr a bandeira de nossa santa fé onde Deus manda [...]”.[4]
Quando Cabeça de Vaca chegou em Santa Catarina, em março de 1541, faziam aproximadamente três anos que os frades estavam trabalhando entre os índios. O conquistador exigiu que os frades o acompanhassem na expedição até o Paraguai. A alegação é de que, pela autoridade que os frades gozavam junto aos índios, eram indispensáveis para a jornada. Frei Bernardo de Armenta de fato era muito respeitado pelos nativos.[5] Praticamente obrigados pelo conquistador, os dois partem à frente de uma centena de índios, recebendo dele a promessa de que os deixaria voltar assim que chegassem ao destino.[6]
Discussões e desavenças entre Cabeça de Vaca e os frades marcam a viagem. O principal motivo era o tratamento dispensado pelos espanhóis aos índios. Frades e índios, inconformados com a situação, tentam fugir ainda durante a viagem, mas, encontrados, são obrigados a se juntar à expedição, que segue até Assunção. Também lá frei Bernardo e frei Alonso iniciam um trabalho de catequese contra a vontade de Cabeça de Vaca, pois segundo ele “onde não há ouro nem prata, não há necessidade de batismo”. Em Assunção, fr. Bernardo funda um “recolhimento”, espécie de “casa de doutrina”, onde recolhe umas trinta ou quarenta moças, indígenas, filhas de carijós, para preservá-las da cobiça dos soldados. Cabeça de Vaca e seus soldados protestaram duramente, e fizeram sérias acusações ao comportamento dos frades - entre outras a de que “guardariam encerradas em sua casa mais de trinta índias dos doze aos vinte anos de idade”.
Em fevereiro de 1543 os dois frades tentam fugir de Assunção, desta vez levando cartas dos adversários de Cabeça de Vaca, denunciando-o às autoridades espanholas. Acabam sendo presos, junto com Alonso Cabrera, considerado chefe da conspiração. Finalmente, em 1544, por causa dos contínuos desmandos, Cabeça de Vaca é preso e destituído de suas funções. Provavelmente frei Bernardo tenha tido um papel importante nas acusações contra o explorador, pois era considerado seu principal desafeto. Os frades puderam voltar a Santa Catarina, onde chegaram em 1545. Várias índias do “recolhimento” de Assunção os seguiram.
Frei Bernardo faleceu entre 1546 e 1547. Frei Alonso continuou na missão até 1548, quando salteadores portugueses, em dois navios liderados por Pascoal Fernandes, de São Vicente, e Martin Vaz, de Ilhéus, invadiram a missão, prenderam e escravizaram os índios, e levaram prisioneiros os espanhóis e o frade. Quem nos informa sobre todo o acontecido é o jesuíta Manuel da Nóbrega, que escreveu dois anos após os acontecimentos. Segundo ele, os salteadores, chegando ao litoral catarinense, convidaram índios e espanhóis para uma festa no navio, onde prenderam a todos, inclusive frei Alonso. Os índios que ficaram na praia foram ao navio, implorando que soltassem o frade, e levassem os índios presos. Como os portugueses se negassem, os índios disseram que também eles queriam ir com o frade. Assim todos foram aprisionados. Os índios foram desembarcados em São Vicente e Ilhéus, onde foram vendidos.[7] Logo se levantou o protesto dos jesuítas e do próprio frei Alonso Lebrón, que se apresentou diante das autoridades portuguesas defendendo-os, pois não poderiam ser escravizados, já que eram cristãos, e não foram aprisionados em “guerra justa” (não estavam combatendo portugueses). Depois de muito insistir junto ao governador, Nóbrega conseguiu que alguns índios fossem libertados, e, guiados pelo jesuíta irmão Leonardo Nunes, voltassem à sua aldeia, em Laguna. Os protestos dos colonos que tinham comprado os índios dificultaram a empreitada. Finalmente, o Padre José de Anchieta relata que uma doença súbita “matou quase todos”. Frei Alonso Lebrón, vendo que pouco conseguia junto às autoridades no Brasil, viajou para a Espanha, para apresentar suas queixas. Acabou desaparecendo, segundo alguns cronistas, prisioneiro nas mãos de piratas franceses. Os carijós catequizados que permaneceram em Laguna continuaram sofrendo os ataques dos caçadores de escravos, e, aos poucos, foram sendo assimilados pela cultura portuguesa, que avançava rumo à costa sul do Brasil.
A atuação dos dois frades não ficou legada ao esquecimento. Além da carta preservada na obra do grande Mendieta, padres jesuítas portugueses, trabalhando no Brasil, cuidaram de preservar para a posteridade o trabalho quase anônimo destes filhos de São Francisco em terras tupiniquins. O já citado Pe. Manoel da Nóbrega, em carta de agosto de 1549, referindo-se aos índios carijós, faz menção ao trabalho dos frades: “Este é um gentio melhor do que nenhum desta costa, os quais foram, não há muitos anos, dois frades castelhanos ensinar e tomaram tão bem sua doutrina, que têm já casas de recolhimento para mulheres, como de freiras, e outras de homens, como de frades. E isto durou muito tempo, até que o diabo levou lá uma nau de salteadores e cativaram muitos deles”.[8] O Pe. Antônio Rodrigues faz uma referência à aldeia, que os frades “chamaram de Província de Jesus, onde fizeram admirável fruto”. O beato José de Anchieta, referindo-se aos carijós aprisionados ilegalmente em São Vicente, diz que eles são “propensos às coisas divinas”.[9]
À primeira vista o trabalho dos frades consiste na doutrina e no batismo dos índios. Uma análise mais atenta do documento porém, nos permite perceber, quase nas entrelinhas, uma realidade mais complexa. Além do mais, para uma melhor compreensão desta realidade recorremos a outros documentos contemporâneos à atuação dos frades em Santa Catarina, que nos fornecem preciosas informações sobre o modo de pensar dos frades, seu plano de atuação e o modo franciscano de evangelizar.
Frei Bernardo, diante do vasto campo que se abre para o anúncio da boa-nova, vendo a boa índole dos indígenas, sua docilidade em aceitar o batismo, percebe a urgente necessidade de mais frades para colaborar na missão. Na carta ele deixa bem claro a preocupação de que os frades a serem enviados sejam da melhor qualidade: “...que V. Mrd. tome esta empresa por suya, y hable a S. M. y a esos señores del Consejo, para que favorezcan tan santa obra, y el favor ha de ser que nos envíen una docena de frailes de nuestra orden de S. Francisco, que sean escogidos,...”, e termina: “que envíen frailes que sean como apóstoles...”. O modelo que inspira o frade no trabalho evangelizador é a experiência da Igreja primitiva. O número de frades pedidos, na nossa opinião, não é aleatório nem casual: ele pede que sejam escolhidos, e que sejam 12. E diz explícitamente: “que sejam como os apóstolos”. Ora, qual era o modo de vida dos apóstolos? Aqui podemos ver uma relação com a experiência evangelizadora dos franciscanos no México: o envio dos primeiros frades ao México (os “12 apóstolos”), e a tentativa da conquista pacífica ("Instrução do Ministro Geral Francisco de los Angeles Quiñones a Martín de Valência, integrante e custódio dos Doze Franciscanos enviados para evangelizar os habitantes de Tenochtitlan [México] conquistado” (4 de outubro de 1523). Além disso, frei Bernardo certamente tinha conhecimento de experiências similares que haviam sido tentadas em outras partes da América, não só no México, mas também em Cumaná (1514), nas costas da atual Venezuela.[10] A experiência havia mostrado aos missionários que onde o Evangelho chegava junto com a espada, com a sede do ouro e a ambição do lucro, o anúncio não atingia seus objetivos.
Frei Bernardo se refere aos “maus cristãos”: “la mala vida y mal ejemplo de los que acá viniesen por conquistadores, les harían menospreciar nuestra fe”. A conquista verdadeira é a “espiritual”, aquela que se dá através do convívio, da partilha de vida, da presença solidária e fraterna. Pregação, catequese e anúncio, seriam muito mais eficientes se ancorados no exemplo de vida dos religiosos. E esse foi o método assumido pelos frades entre os índios carijós. Para pregar, anunciar e convencer não basta o preparo intelectual, mas são necessárias pessoas que se destaquem pelo exemplo de vida. Pessoas cuja vida seja reflexo e espelho das verdades que estão pregando. Tudo isso pode ser resumido na expressão “testemunho”. Somente frades que “fossem como “apóstolos” entrariam nesta categoria. Ora, o modelo de pregação dos apóstolos é o da itinerância, do serviço desinteressado pelo Reino, do anúncio da misericórdia e do amor de Deus, capazes de ir até as últimas consequências em defesa do rebanho, como Jesus Cristo. Esse foi o modelo asumido por Francisco de Assis e seus seguidores. Os frades, pela situação em que se encontravam, viviam, necessariamente a itinerância. Sem dúvida a pobreza e a austeridade de vida eram realidades onipresentes na vida destes missionários. A preocupação dos dois frades em ter bons evangelizadores é uma das caracteristicas deste período de evangelização na América. Com raras exceções, os primeiros a serem mandados eram pessoas muito bem preparadas, moral, espiritual e intelectualmente.
Hoje, quando falamos de evangelização, não podemos desvinculá-la de um envolvimento mais amplo com a realidade social. O anúncio, se é eficaz, transforma toda a realidade. Na carta frei Bernardo demonstra uma clara preocupação que poderíamos denominar de “civilizatória”. A preocupação do frade em conseguir bons evangelizadores é seguida da preocupação em conseguir bons trabalhadores e profissionais, bem como ter instrumentos necessários para a transformação da realidade. O anúncio da Boa Nova é concomitante à preocupação com a transformação nas condições materiais dos indígenas: “...que S. M. envíe un factor suyo que traiga labradores, que no son menester conquistadores... Vengan labradores y traigan mucho hierro, y algún lienzo y ropa, y ganado de vacas y ovejas burdas, y cañas de azúcar, y maestros para hacer ingenios de azúcar, y algodón y trigo y cebada, y toda manera de pepitas, que se darán bien, y sarmientos, que se harán muy grandes viñas...”. Os franciscanos em toda a América Latina, na sua atuação missionária, por onde passaram deixaram sua marca, não só no anúncio e pregação, mas através de uma preocupação com a qualidade de vida do povo. No Brasil muitos fundaram cidades, construíram hospitais e escolas, ensinaram o povo a cultivar a terra. Pelo que transparece na carta de frei Bernardo, os frades estavam preocupados com uma atuação integral: salvar a alma, cuidar do espírito, mas também cuidar do corpo, da vida ainda neste mundo. A preocupação não é apenas religiosa: é civilizatória, é “social”, como diríamos hoje. Se o pedido de frei Bernardo fosse atendido teria se concretizado no sul do Brasil, guardadas as devidas proporções, a experiência que depois foi realizada por frei Luis de Bolãnos, no Paraguai, a partir de 1580.
A evangelização, quando assumida por amor ao Reino e ao próximo, necessariamente assume contornos de denúncia social. Frei Bernardo não tem receio de denunciar os pecados do sistema colonizador e da conquista pelas armas. Ele mesmo afirma que “no son menester conquistadores... Y crea V. Mrd. que la mala vida y mal ejemplo de los que acá viniesen por conquistadores, les harían menospreciar nuestra fe. Porque viendo que yo les hago guardar la ley de Dios a la letra, y la guardan con tanta voluntad, si viesen lo contrario en los que acá viniesen, dirían que éramos burladores, pues que a ellos les mandábamos que guardasen la ley de Dios, y los cristianos viejos la quebrantaban”. A história da evangelização na América Latina está cheia de exemplos deste aberto conflito entre os projetos de evangelização e o projeto colonizador.
Esta realidade vai se tornar crítica com a chegada de Cabeça de Vaca. Este trouxe, na sua expedição, 400 soldados “bien aderezados”, isto é, preparados para o combate, para a guerra. Os soldados chegam armados com arcabuzes (260 arcabuzeiros), lanças, bestas, espadas, escudos, além das armaduras e dos cavalos, em número de trinta. Podemos imaginar a reação dos indígenas ao ver todo esse aparato chegando em suas terras. É sem dúvida uma demonstração de força, de poder, e incute temor.
A atuação dos dois frades vai em sentido oposto à atuação de Cabeça de Vaca e dos soldados. Além da demonstração de força bruta, sabemos, através de outros relatos o quanto era comum os soldados abusarem das índias, mesmo porque nas campanhas de conquista não participavam mulheres européias. A situação se mostrava mais crítica porque, enquanto os frades buscavam educar os índios dentro dos parâmetros da moral sexual cristã, a vida dos soldados e colonos, em geral, ia em sentido oposto a estes ensinamentos.
Frei Bernardo, numa outra carta dirigida às autoridades espanholas vai denunciar a prática de escravizar índios e índias. Por isso a saída encontrada pelos missionários, a criação dos “recolhimentos”, em Santa Catarina e em Assunção, é uma atuação clara de defesa do índio, contra os interesses dos conquistadores. Este viam nos índios pessoas a serem exploradas, subjugadas, principalmente as mulheres. Segundo o cronista Juan de Araoz, no auge da desavença de Cabeça de Vaca com os frades, este vai exigir deles que “não se carregassem de tantas mulheres”.[11] Outro cronista, Pedro Fuentes, escrevendo sobre os vícios dos habitantes de Assunção, exatamente à época de Cabeça de Vaca, diz que “há uns que têm dez índias, outros, 30, e alguns, 50, e todos as têm como mulheres...”.[12] Na sociedade hispano-guarani, o que valiam eram “as mulheres, o ferro e as miçangas. Com as índias – quanto mais, melhor -, o sustento estava garantido, pois eram elas as que plantavam, processavam os alimentos e realizavam quase todas as tarefas necessárias para sobreviver naquela terra bruta”.[13] Entende-se a partir deste comentário o cuidado dos frades em proteger as índias em “recolhimentos”, e o motivo de serem eles objeto da ira dos soldados e colonos.
A tentativa de fuga dos dois frades e dos índios, mostra um esforço de resistência aos planos do conquistador. O fato de alguns historiadores verem nos dois frades os “principais opositores de Cabeça de Vaca” (Van der Vat) reforça sua atuação de resistência. A resistência, como vimos, continua mesmo depois da destruição da missão, quando frei Alonso Lebrón busca de todos os modos denunciar os crimes dos portugueses diante das autoridades. Também neste particular os frades de Laguna estão inseridos na tradição da ordem, de assumir, com todos os meios a seu dispor, a defesa dos índios contra as injustiças. Não podemos citá-los aqui, mas recordamos os inúmeros casos de frades, em toda a América, que se envolveram de corpo e alma nas polêmicas do período colonial, denunciando as realidades iníquas que agrediam a dignidade do índio.
Na carta de frei Bernardo transparece uma pura e quase ingênua confiança no trabalho de evangelização. Seu otimismo e entusiasmo dão provas de como o missionário estava convencido do trabalho a ser realizado. Este ardor missionário nasce primeiro de uma vivência do Evangelho. O testemunho de vida é a primeira forma de anúncio. Pelos termos da carta, se percebe que o coração de frei Bernardo ardia pelo amor das almas a serem salvas. “Y con estos indios se ha de hacer muy mejor que con otros de otras partes, pues ellos con tanta voluntad se subjetan al yugo de nuestra santa fe católica... Y confío en Nuestro Señor que cuando ésta llegue allí, tendremos más de ochenta leguas convertidas a nuestra santa fe. Así que, no deje V. Mrd. y esos señores que se pierda tanto bien, porque no se lo demande Dios el día del Juicio, si no socorriesen a tan santa obra.... Pues tal tierra como ésta, no es razón de la dejar, demás de lo principal que hay en ella, que son muchas ánimas.”
A atuação franciscana em Laguna foi, antes de tudo, de “presença”. Foi uma presença silenciosa, efêmera, que não deixou grandes escritos, crônicas ou relatos, mas que se fixou no coração dos habitantes. Recordamos que a carta ao Conselheiro foi escrita apenas alguns meses após a chegada à localidade. Mesmo assim a missiva exala uma simpatia pela cultura indígena e um grande otimismo em relação à missão: “Y lo que más es de alabar a Nuestro Señor, que los más viejos (que hay hombres de cien años) vienen con más fervor. Y no sólo esto, mas ellos mismos predican públicamente la fe católica. Son tan grandes maravillas las que Nuestro Señor obra en ellos, que no las sabría decir, ni bastaría papel para las escrebir....”.
Além do otimismo, o religioso não deixa de ressaltar os aspectos positivos daquela cultura: a riqueza da terra, (“que no tiene que ver Santo Domingo con la bondad de esta tierra”), a variedade de plantas, frutas e animais (“...donde hallarán los que vinieren muchas gallinas y pescados excelentes, y muchos puercos jabalíes y venados, y muchas perdices...”), a saúde, longevidade e força dos indígenas (“que se cansan de vivir los hombres...”), sua natural bondade, (“Y con estos indios se ha de hacer muy mejor que con otros de otras partes...”).
O fato de que Cabeça de Vaca exigisse que os frades o acompanhassem na viagem ao Paraguai é sintomático. Ele logo percebeu a autoridade moral dos frades perante os indígenas. E percebeu que a presença deles na expedição seria uma valiosa ajuda. Numa outra carta, relembrando estes fatos, frei Bernardo comenta que, após uma consulta de Cabeça de Vaca sobre a viagem, “todos concordaram que deveria ser feita a entrada por terra, e que isso fosse com a minha pessoa e a de meu companheiro, pela grande credibilidade que tínhamos com os índios...”.[14] Esta também foi a opinião do comandante Pedro Dorantes. Quando se preparavam para a viagem, este pediu aos frades que os acompanhassem: “Disse-lhe também que ajudaria muito a nossa boa viagem que o comissário (frei Bernardo) fosse com o governador (Cabeça de Vaca), porque os índios do campo o queriam muito... Encarreguei ao comissário essa questão e ele, vendo que isso convinha, concordou... E tenho certeza que Deus fez que não nos desentendêssemos com os índios graças a ele e a um índio que se chama Miguel...”.[15] As crônicas dos viajantes que participaram da expedição relatam as imensas dificuldades da viagem que teve início no litoral brasileiro e terminou em Assunção. Depois de três semanas de viagem, acabaram-se os mantimentos. Cabeça de Vaca queria consegui-los à força dos índios.[16] Acabou sendo convencido a incumbir frei Bernardo de conseguir os víveres entre os nativos da região, coisa que este conseguiu sem dar um único tiro. Sobre os mantimentos conseguidos no caminho, Dorantes relata, discorrendo sobre o papel de frei Bernardo: “Preferiam dar a ele e não vendê-los para nós”.[17]
O respeito e autoridade de que o frade gozava não vinha do uso da força, do poder das armas, do ser superior ou da coerção. Vinham do testemunho de vida, do bom exemplo, da presença fraterna e humilde dos frades vivendo no meio dos índios, com eles e como eles. Tal afirmação é confirmada por vários testemunhos de autores contemporâneos e testemunhas oculares dos fatos. A autoridade dos frades diante dos índios é colocada à prova quando estes têm que assumir uma clara posição de defesa dos índios, contra Cabeça de Vaca. O cronista Juan de Araoz, escrevendo em 1541, relata que Cabeça de Vaca não estava satisfeito com os frades, pela amizade destes com os índios “inúteis, a quem davam de comer”.[18] Esta expressão lacônica revela uma diferença fundamental entre o modo dos frades e do conquistador se relacionarem com os índios. Enquanto o frade se preocupa com o sustento do nativo, o conquistador os considera inúteis, mesmo sendo aqueles índios os responsáveis pelo carregamento das cargas da expedição. Pedro Dorantes relata ainda o cuidado de frei Bernardo com os doentes: “Houve ocasiões em que convinha ao padre comissário ficar para traz com os enfermos, dando-lhes de comer das coisas que [os índios] lhe traziam de esmola”.[19]
A questão que se coloca não é apenas quanto ao “estar presente”, mas o “como” ser presença: uma presença que não se impõe, que não agride, que não extirpa os valores culturais, mas reconhece seus valores, e é capaz de se “inculturar”. Pelos vários testemunhos já citados, percebemos que os frades estavam muito próximos aos índios. A presença é transformadora pelo próprio testemunho de vida dos frades. Podemos dizer que é uma “presença minorítica”, fazendo-se um deles, sem deixar de propagar os valores cristãos em que acreditavam. Diante de uma realidade totalmente diferente da sua própria, os frades demonstram uma “abertura possível”. Embora levando consigo todo o aparato ocidental-cristão, típico de missionários que iam “converter os infiéis”, que iam salvá-los da idolatria e do demônio, os frades, no pouco tempo de trabalho, entraram em diálogo com a cultura carijó. A questão da alteridade, do perceber e aceitar os valores do outro, do diferente, é um dos mais importantes elementos a serem levados em consideração numa atuação missionária. O comportamento dos frades em Laguna é bem diverso de muitos missionários posteriores (inclusive no Brasil), que vão ver, na cultura a ser evangelizada, apenas erros a serem extirpados e defeitos a serem corrigidos.
Uma das acusações que se faz ao trabalho missionário no Brasil, a todas as ordens, é a superficialidade na catequese. Oswald de Andrade chega a afirmar que “nunca fomos catequizados”. De fato, se acreditarmos nos relatos de frei Bernardo, com centenas de batizados a cada dia, pode-se colocar em dúvida a profundidade da catequese. Porém precisamos proceder com cautela. Tal prática não era tão incomum na época. Frei Pedro de Gante fala em 14 mil batizados por dia nos inícios da evangelização no México. Na mesma área, Motolinía, fala de cinco milhões de batizados em 12 anos, entre 1524 e 1536. A questão é que o batismo não era o ponto final da catequese. Sem dúvida a grande preocupação dos frades era a ação “soteriológica” da Igreja, da qual eram os ministros. Na evangelização da América Latina o sacramento do batismo foi central, pois era a forma de salvar imediatamente as almas do inferno. A ação mistagógica, a iniciação nos mistérios da fé era um segundo passo. Numa situação tão especial, com tantas dificuldades a serem vencidas, começando pelo número de missionários, este primeiro contato era fundamental. Frei Bernardo e Alonso planejavam permanecer em meio aos índios por um bom tempo. Nesse sentido, a fundação das “casas de doutrina” ou dos “recolhimentos” para homens e mulheres eram os meios ordinários para continuar o aprofundamento da catequese, àqueles que já haviam recebido o batismo. Nestas casas, conhecidas também dos jesuítas, os índios, já batizados, poderiam aprofundar sua fé, tendo, aí sim, um conhecimento maior das verdades cristã, chegando a uma fé madura, a uma adesão pessoal e profunda.
O exagerado otimismo e até um certo idealismo do frade em relação à missão, como aparece na carta, nos colocam também alguns questionamentos. Conflitos, pecados e desvios dos índios quase não aparecem. E não é porque não os tivessem. Uma resposta a todo esse otimismo é o próprio objetivo da carta, que é conseguir ajuda, convencer as autoridades a mandar mais frades, além de conseguir colonos para trabalhar na terra. Ora, se o autor expusesse a dura realidade que presenciava, certamente assustaria os eventuais candidatos. Por outro lado a carta foi escrita apenas alguns meses após a chegada dos frades, o que certamente não lhes permitia fazer um profundo diagnóstico da realidade. Outro elemento a destacar é que não podemos comparar os conflitos enfrentados pelos missionários junto às populações indígenas das florestas do Brasil, com os conflitos enfrentados pelos missionários que atuavam em meio às culturas antropologicamente mais avançadas, como os astecas, maias e incas. O mais interessante, porém, é que os fatos mostram que, mesmo após conviver com os índios por vários anos, certamente conhecendo seus pecados e desvios, os frades continuavam defendendo-os contra as injustiças do sistema colonial.[20]
Um discurso mais ancorado nas ciências históricas poderia aprofundar a relação de frei Bernardo e frei Alonso com a corrente do humanismo renascentista europeu, em voga na Espanha e Europa naquele momento histórico, certamente conhecido pelos frades, e que inspirou o projeto dos franciscanos que atuaram nos primórdios da Evangelização do México. É legítimo também se questionar sobre a relação dos frades de Laguna com todo o processo de reforma católica, que exatamente neste momento está dominando a vida religiosa na Europa, particularmente a Espanha, e que gerou personagens fascinantes, como Tereza D’Avila, São João da Cruz, Inácio de Loyola, e o próprio franciscano Cardeal Cisneros, que com tanto zelo se ocupava da reforma da Igreja nos domínios espanhóis. Lembremos que estamos às vésperas do Concílio de Trento (1545-1563) e Inácio de Loyola havia acabado de fundar a Companhia de Jesus (1534). É lícito perguntar até que pontos estes elementos de contexto impulsionaram ou inspiraram estes frades no seu serviço aos índios nas longínquas paragens do litoral sul do Brasil.
Ao falarmos de missão e evangelização poderíamos recorrer a vários testemunhos de frades que, desde os primórdios da chegada dos portugueses, atuaram junto aos habitantes do Brasil, fossem eles índios, colonos ou escravos negros. Grandes nomes poderiam ser lembrados, nos mais variados campos de atuação. Frades se destacaram no mundo das letras, da educação, da pregação, da missão, na vida de santidade. Ilustres intelectuais, como frei Vicente de Salvador, que mereceu o epíteto de “Heródoto brasileiro”, por ter saído de suas penas a primeira história do Brasil; frei Jaboatão, ideólogo de um “Novo Orbe Seráfico Brasílico”; frei Veloso, que subindo serras e montanhas, percorrendo rios e vales, catalogando a “Flora Fluminensis”, criou uma obra estupenda, fazendo dele o primeiro botânico brasileiro; frei Francisco do Monte Alverne, cujo manejo da palavra e da retórica impressionou imperadores. Poderíamos citar ilustres missionários que catequizaram nações indígenas inteiras, ou outros, que deixaram obras grandiosas, como o convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro, que neste ano completa 400 anos de existência. Poderíamos apresentar grandes vultos de santidade, como o santo frei Galvão. Optamos pela experiência de Laguna, com toda sua simplicidade, fragilidade e precariedade, porque acreditamos que esta pode nos dar excelentes indícios sobre como nós, franciscanos, podemos anunciar o Evangelho no século XXI.
Petrópolis, 04 de abril de 2008 (Frei Sandro Roberto da Costa, ofm)
Libro cuarto de la historia eclesiástica indiana[21]
Jerônimo de Mendieta
Capítulo XLV (45)
Contiene una carta, de la cual se colige cómo nuestro Dios en estos tiempos tenía ordenado de llamar a los indios a su santa fe, y cómo ellos de su parte estaban dispuestos para la recebir
Por penúltimo capítulo al fin de este cuarto libro, quise poner una notable carta que un fraile menor escribió desde el Río de la Plata al doctor Juan Bernal Díaz de Luco, siendo oidor del Real Consejo de Indias, que después fue dignísimo obispo de Calahorra, de la cual claramente se coligen tres cosas. La primera, que el descubrimiento de las Indias no fue casual sino misterioso, ordenado por la sabiduría y bondad divina para la conversión y salvación de los naturales de ellas, que Dios tenía para sí escogidos, como yo lo tengo tratado en el proceso de esta Historia. La segunda, que los indios de su parte estaban dispuestos para recebir la fe católica, si por buenos medios se la fueran enseñando, porque antes que recibiesen violencias de los nuestros, nunca hicieron mal a los que entraban en sus tierras. Y como no tenían fundamento para defender sus idolatrías, fácilmente las fueron poco a poco dejando. La tercera es, el celo que siempre han tenido y mostrado los religiosos para la conversión de estas gentes, y lo mucho que ha aprovechado para su conservación y cristiandad. Esta carta en su original fue derecha a Sevilla, y de allí vino abierta a esta Nueva España, y la hubo el padre Fr. Toribio Motolinia, y sacado el traslado de ella (que yo tengo en mi poder), envió el original al mesmo doctor Bernal. Dice, pues, así la carta:
«Aunque V. Mrd. no tiene noticia de mí de vista ni habla, cónstame que la tiene por relación del licenciado Gudino, que reside en Sevilla, el cual sé que es muy servidor de V. Mrd. Y él me dijo que V. Mrd. me mandaba le avisase las cosas que tocasen al servicio de Dios y de S. M. Yo, señor, soy el fraile de S. Francisco de la provincia del Andalucía, a quien nuestro general dio licencia que pasase con cuatro compañeros al Río de la Plata, y pasé con el socorro que vino a hacer Alonso de Cabrera, veedor de S. M., a los que quedaban en el Río de la Plata, después de la muerte de D. Pedro de Mendoza. Y plugo a Nuestro Señor que llegamos hasta entrar por la boca del Río de la Plata, y forcejamos por tres veces por entrar, y fue tan recio el viento contrario, que dio con la nao cerca del puerto de don Rodrigo, que agora se llama el puerto de S. Francisco, aunque hay otro que se dice río de S. Francisco, adonde parece que Nuestro Señor milagrosamente nos trajo, porque hallé luego lenguas con que pudiese hablar a los indios, y estos fueron tres cristianos que ha tiempo que están entre ellos, y saben hablar su lengua como los mesmos indios. Y juntamente con ésta, otra mayor maravilla, y es que habrá cuatro años que se levantó un indio, que en más de doscientas lenguas habló por espíritu de profecía, diciendo que vendrían presto verdaderos cristianos, hermanos de Santo Tomé, a los baptizar. Y mandaba que no hiciesen mal a algún cristiano, mas que les hiciesen mucho bien. Y tanto era el bien que hacían, que de los hombres que escaparon huyendo del desbarato del Río de la Plata, supe que les barrían el camino por do pasasen, y caminando, los mandaban poner debajo de un árbol, hechas enramadas a do descansasen, y les ofrecían muchas cosas de comer y muchos plumajes, y se tenían por bienaventurados los indios que los tenían en sus buhíos o chozas. Y llamábase este indio Etiguara, el cual ordenó muchos cantares que ahora los indios cantan, en que hallo manda que se guarden los mandamientos de Dios. Y más, que porque los indios usaban tener muchas mujeres, y casaban con primas y hermanas indiferentemente, mandaba lo que en este caso ordenan los sacros cánones, que no tuviesen más de una mujer, y no casasen con parientas dentro del cuarto grado, de la misma manera que entre cristianos se tiene. Este indio se fue de esta tierra, y dejó discípulos. Y como llegamos nosotros a esta sazón, fue tan grande el gozo que con nuestra venida ovieron, que no nos dejan reposar, ni apenas comer, de los muchos que vienen a recebir el baptismo. Y juntamente hago luego sus casamientos, haciéndolos quedar con sola una mujer. Y lo que más es de alabar a Nuestro Señor, que los más viejos (que hay hombres de cien años) vienen con más fervor. Y no sólo esto, mas ellos mismos predican públicamente la fe católica. Son tan grandes maravillas las que Nuestro Señor obra en ellos, que no las sabría decir, ni bastaría papel para las escrebir. Por tanto, por aquel amor que Jesucristo tuvo al género humano en querernos redimir en el precioso árbol de la cruz, pues todos sus trabajos fueron por salvar y redimir las ánimas, y aquí hay tan gran tesoro de ellas, que V. Mrd. tome esta empresa por suya, y hable a S. M. y a esos señores del Consejo, para que favorezcan tan santa obra, y el favor ha de ser que nos envíen una docena de frailes de nuestra orden de S. Francisco, que sean escogidos, y los pida S. M. a la provincia del Andalucía y a la de los Ángeles. Y que encargue S. M. a los provinciales de estas dos provincias, que envíen frailes que sean como apóstoles. Y demás de esto, que S. M. envíe un factor suyo que traiga labradores, que no son menester conquistadores, porque es gente recia, y si los lastimasen, luego eran alzados. Y es una gente tan animosa que no dejarían hombre a vida, porque son grandes flecheros, y traen unas pelotas que con un hombre armado darán en tierra, porque es gente de grandes fuerzas y de grande estatura, que apenas veo hombre entre ellos que no sea grande. Y crea V. Mrd. que la mala vida y mal ejemplo de los que acá viniesen por conquistadores, les harían menospreciar nuestra fe. Porque viendo que yo les hago guardar la ley de Dios a la letra, y la guardan con tanta voluntad, si viesen lo contrario en los que acá viniesen, dirían que éramos burladores, pues que a ellos les mandábamos que guardasen la ley de Dios, y los cristianos viejos la quebrantaban. Y por esta causa, crea V. Mrd. que no está convertido todo el mundo, por ver la mala vida de los cristianos. Vengan labradores y traigan mucho hierro, y algún lienzo y ropa, y ganado de vacas y ovejas burdas, y cañas de azúcar, y maestros para hacer ingenios de azúcar, y algodón y trigo y cebada, y toda manera de pepitas, que se darán bien, y sarmientos, que se harán muy grandes viñas, que no tiene que ver Santo Domingo con la bondad de esta tierra. Y lo que me parece se puede en esto hacer, es que S. M. o su Consejo den una provisión para el Andalucía, que hay muchos labradores, los cuales me encomendaron que les avisase si fuesen las de por acá buenas tierras, y que ellos se vendrían a vivir a ellas con sus mujeres y hijos a su costa, aunque S. M. debría proveer que siquiera les diesen navíos en que viniesen, y que ellos pusiesen lo demás, que no sería mucho. Y si esto no quisiere hacer S. M., que es darles navíos, no han de faltar labradores que vengan a esta tierra a su costa, porque están ya las tierras allá tan cansadas y las rentas de los cortijos tan subidas, que no se pueden valer. Y por esta necesidad en que se ven, harán cuenta que S. M. les hace muy grandes mercedes en dejarlos venir. Y crea V. Mrd. que hallarán quien venga. Y trayendo hierro (como dicho tengo), los indios, por poco que les den, y alguna cosa con que se vistan, ayudarán a los labradores a hacer los cañaverales y todo lo demás. Y aún confío que desmontando la tierra, se hallarán minas de oro y de plata, porque sin hierro no se pueden cavar. Y con estos indios se ha de hacer muy mejor que con otros de otras partes, pues ellos con tanta voluntad se subjetan al yugo de nuestra santa fe católica, por lo cual son dignos de mayores libertades que otros, pues sin más conquistadores de cinco religiosos, se nos dan todos, y no nos podemos valer de las gentes que a nosotros vienen. Y confío en Nuestro Señor que cuando ésta llegue allí, tendremos más de ochenta leguas convertidas a nuestra santa fe. Así que, no deje V. Mrd. y esos señores que se pierda tanto bien, porque no se lo demande Dios el día del Juicio, si no socorriesen a tan santa obra. Los navíos que vinieren, vengan al puerto de don Rodrigo o a la isla de Santa Catalina, que luego nos hallarán, donde hallarán los que vinieren muchas gallinas y pescados excelentes, y muchos puercos jabalíes y venados, y muchas perdices, y salud, que se cansan de vivir los hombres. Pues tal tierra como ésta, no es razón de la dejar, demás de lo principal que hay en ella, que son muchas ánimas. A esta provincia le tengo puesto nombre, la Provincia de Jesús, en cuya virtud se conquista y se hacen las maravillas que Dios hace. Plega a su divina piedad por su preciosa sangre (con que nos redimió) de alumbrar a V. Mrd. y a esos señores sus entendimientos, con que provean a tan santa obra, y a S. M. le ponga en corazón que lo mande proveer. No escribo a S. M. hasta que V. Mrd. ponga la mano en ello, porque confío en nuestro Señor Dios que poniendo V. Mrd. la mano en cosa de tanto servicio suyo, tendrá buen efecto. Nuestro Señor la muy reverenda persona de V. Mrd. guarde y conserve en su servicio. Fecha en el puerto de S. Francisco de la Provincia de Jesús, cerca del puerto de don Rodrigo, primero de mayo, año de mil y quinientos y treinta y ocho.-Humilde capellán de V. Mrd., Fr. Bernardo de Armentia, comisario del Río de la Plata, fraile de S. Francisco.»
[1] A área de atuação destes frades era conhecida como área “passagem”, onde os limites geográficos de território pertencentes a Espanha ou Portugal ainda não estavam claramente definidos.
[2] “Esta carta en su original fue derecha a Sevilla, y de allí vino abierta a esta Nueva España, y la hubo el padre Fr. Toribio Motolinia, y sacado el traslado de ella (que yo tengo en mi poder), envió el original al mesmo doctor Bernal”. Jerônimo de Mendieta, História Eclesiástica Indiana, Livro IV, Capítulo 45, in Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes: http://www.cervantesvirtual.com.
[3] O motivo porque o Provincial da Andaluzia não enviou os frades não é conhecido, mas, segundo recentes pesquisas ainda em curso, há suspeitas de que os frades estivessem trabalhando na costa sul do Brasil fora da obediência.
[4] Esta frase dá a entender que o frade tinha vindo na viagem por iniciativa própria, coisa rara naqueles tempos, pois, em geral, eram enviados pelo superior eclesiástico, sob obediência, a serviço da coroa, que se encarregava de todo o apoio necessário. Cfr. Mello, Amílcar D’Avila de, Crônicas das Origens, III. Santa Catarina na era dos descobrimentos geográficos, Ed. Expressão, Florianópolis, SC, 2005, 222.
[5] Pedro Dorantes, comandante de uma das caravelas de Cabeça de Vaca, narra que, numa expedição em que precisou do auxílio dos índios, fez-se passar por filho “do comissário da Ordem de São Francisco”, ou seja, de Bernardo de Armenta, "a quien ellos dizen Payçumé y tienen en mucha veneración", segundo expressão do próprio Dorantes. Idem, 236.
[6] “Determinei fazer a jornada para servir a Deus e a Vossa Majestade, embora com grande dificuldade, por deixar uma coisa já começada, tendo batizado muitos deles e muitos outros que estavam sendo ensinados sobre as coisas de nossa santa fé católica e por ter-lhes prometido que sempre estaria com eles. E para que não tomassem minhas palavras por inverdades, disse-lhes e prometi-lhes que, feita a jornada com os cristãos, voltaria para eles sem falta...”. Crônicas das Origens, 229.
[7] Afirma o célebre jesuíta Manuel da Nóbrega: “E hos negros (índios), desembracarão em huma Capitania para venderem alguns delles, e todos se acolherão à Igreja dizendo que erão christãos, e que sabião as orações e ajudar a missa, pedindo misericordia. Non lhes valeo, mas forão tirados e vendidos pollas Capitanias desta costa”. Crônicas, 291.
[8] Manoel da Nóbrega, Cartas do Brasil, p. 81. Rower, 38. Van der Vat, 74.
[9] Crônicas, 291.
[10] O autor faz uma referência a Santo Domingo, o que nos permite supor que o mesmo conhecesse, de algum modo, aquela região e, consequentemente, o trabalho dos frades: “que no tiene que ver Santo Domingo con la bondad de esta tierra”.
[11] Crônicas das Origens..., 234.
[12] Relato de Pedro Fuentes, escrito em 1545, in Crônicas das Origens..., 280.
[13] Crônicas das Origens..., 276-277.
[14] Crônicas das Origens..., 229.
[15] Idem, 239.
[16] Pedro Dorantes diz que “...ele (Cabeça de Vaca), queria ir até eles com mão armada para trazer mantimentos. Opus-me e comentei sobre isso com o comissário (frei Bernardo), que falou com o governador e foi até os índios e pediu cautela”. Ibidem, 240.
[17] Ibidem, 240.
[18] Idem, 234.
[19] Ibidem, 240.
[20] Quando Cabeça de Vaca chegou, disse que os frades estavam enfrentando problemas com os índios por terem queimado algumas ocas, por causa de “pestilência”. As atitudes dos frades nem sempre eram compreendidas.
[21] Site na internet: http://www.cervantesvirtual.com
Memoria histórica de la Evangelización y misión (franciscana) en América Latina: Momentos luminosos y momentos de crisis
Córdoba Argentina - 14 abril, 2008
Francisco Morales, OFM
Centro de Estudios Humanísticos fray Bernardino de Sahagún
Cholula, Pue.
Introducción
Considero un atrevimiento el abordar este tema. Hace aproximadamente unos 16 años, cuando el Ministro general, fray John Vaughn me pidió preparar un volumen para conmemorar los 500 años de presencia franciscana en América, me tuve que asociar con una veintena de investigadores. Ahora, cuando intento hacer una memoria histórica de un tema tan variado como es el de la Evangelización y misión franciscana en América Latina considero que se trata no sólo de un reto, sino de una gran osadía.
El atrevimiento resalta porque en este tema, con la multiplicidad de los pueblos originarios, de conformaciones geográficas, de culturas e incluso de procesos de conquista y expansión, cualquier visión general resulta parcial y limitada. Conciente de estos peligros, abusando de la confianza de uds., y basándome en mis trabajos de investigación confinados principalmente al área de México, expondré algunas características que considero importantes de la misión franciscana en nuestra América.
Ante todo voy señalar algunos presupuestos generales. A saber la reforma de la orden y la misión; la utopía franciscana; el sentido de la universalidad de la orden. Posteriormente pasaré a los momentos luminosos y los momentos de crisis.
I PARTE
PRESUPUESTOS GENERALES
1 La Reforma de la Orden y la misión.
Históricamente hablando, pocos casos se han dado en la Orden en los que sus anhelos reformistas estén relacionados con una expansión misionera de tan significativas consecuencias como las que vemos en la misión en América. Nuestro hermano fray José García Oro en un libro, que por desgracia sospecho que no ha circulado de una manera amplia entre nuestras fraternidades: Prehistoria y primeros capítulos de la evangelización de América, (Venezuela, Ediciones Trípode, 1988) resume los puntos básicos de esta relación entre Reforma y misión.
Los iniciadores de la misión franciscana en América pertenecen a un grupo muy involucrado en las corrientes del reformismo franciscano español de los últimos años del siglo XV y principios del XVI. Una parte de ese grupo fundó la provincia de los Ángeles en Extremadura de donde salió el Ministro general, fray Francisco de los Ángeles Quiñones que envió los doce primeros franciscanos a México. Otra parte fundó la Provincia de San Gabriel, fuente de una corriente intensamente comprometida con el franciscanismo español del XVI[1]. Ambas provincias nutrieron con abundancia las primeras misiones americanas. El ideal misionero de esas corrientes reformistas se forjó en un contexto de lucha por un estilo de vida basado en dos notas fundamentales: radicalismo evangélico y eremitismo contemplativo. El objetivo concreto del ideal misionero fue, en sus orígenes, un tanto vago, pues bien podía referirse a la misión entre los moros recién conquistados en el sur de España, a la de los pueblos descubiertos en
El ejemplo más llamativo de esta fuerte vocación misionera con objetivos un tanto indeterminados es el de fray Martín de Valencia, líder espiritual de los franciscanos en Nueva España (1524-1535). Las notas hagiográficas que sobre él nos dejó uno de sus compañeros, fray
. . . comenzó a sentir una devoción interior y a traer a la memoria la conversión de los infieles, y pensando esto en muchos versos y salmos que iban rezando hallaba entendimiento a este propósito, de que gozaba su espíritu y crecía en aquel deseo, especialmente en aquel salmo que comienza: Eripe me de inimicis meis, donde dos veces se repite aquel verso que dice: convertentur ad vesperum et famem patientur ut canes. Y decía, hablando en su espíritu: ¡Oh! cuándo será aquesto? ¿Cuándo se cumplirá esa profecía? ¿Cuándo será esa tarde? Por ventura, ¿no es ya? ¿No será este tiempo? ¿No sería yo digno de ver este convertimiento, pues ya estamos en las vísperas y fin de nuestros días y en la última edad del mundo?[3]
Este pensamiento envolvió en tal manera a fray Martín, que por momentos salió fuera de sí, según continúa el texto:
. . . estando leyendo [las lecciones de maitines] en el púlpito, vido en espíritu muchas ánimas en gran número de infieles que convertían y venían a la fe y al baptismo. Fue tanto el gozo y alegría que su espíritu sintió interiormente que no se pudo sufrir de echarlo fuera, y como loco fuera de sí, no fue en su mano y dio voces y dijo tres veces en alta voz «Loado sea Jesucristo, loado sea Jesucristo, loado sea Jesucristo». Los frailes viéndole así atónito y como embriagado, no sabiendo el misterio, pensando que enloquecía, lleváronlo a una celda y le enclavaron la ventana que estaba en el techo y cerrándole la puerta de la celda se tornaron a acabar sus maitines[4].
Además del arrebato místico, -uno de los ingredientes peculiares de los grupos “espirituales”,- dos cosas llaman la atención en este relato: 1) la interpretación de un pasaje bíblico que nada tiene que ver con la conversión de los infieles y 2) la relación que se hace entre conversión de los infieles y la última edad del mundo. Estos elementos son importantes para introducirnos, así sea de una manera un tanto tentativa, en algunos aspectos de la formación intelectual y espiritual de los primeros hermanos que llegaron a nuestra América.
2 La utopía franciscana
Las exclamaciones de fray Martín de Valencia, ¿Cuándo será esa tarde? ¿Por ventura, no es ya? ¿No será este tiempo? nos introducen en el tema tan discutido de las utopías y del milenarismo franciscano de los primeros misioneros.
Hay que aclarar, ante todo que, definitivamente, nuestros hermanos de esa época hacían lecturas bastante peculiares de los textos bíblicos. En el caso del texto que produjo el arrebato místico a fray Martín de Valencia al ver la proximidad de una época de grandes conversiones, hay que señalar que se trata del salmo 58 en el que se implora la ayuda de Dios para escapar de los enemigos: eripe me de inimicis meis (líbrame de mis enemigos). El siguiente versículo, convertentur ad vesperum et famem patientur ut canes, que emocionó tanto a Martín de Valencia, se refiere a que esos enemigos “regresarán (convertentur) por la tarde y tendrán hambre como perros” (traducción literal), sentido que fray Martín altera totalmente al traducir el verbo “convertentur” no como “regresarán”, sino como “se convertirán”, tomándolo así como un pronóstico del gran “convertimiento” pues ya se estaba “en la última edad del mundo”.
El tema de la última edad del mundo es recurrente en varios textos importantes sobre la misión franciscana en el siglo XVI. El Ministro general de la orden, fray Francisco de los Ángeles Quiñones, en la Obediencia que dio a los Doce primeros franciscanos de México, les decía: “A vosotros, pues, oh hijos míos, doy voces yo, indigno padre, acercándose ya el último fin del siglo . . .” ¿Se trata de una visión apocalíptica de la historia? Se discute mucho, pero no hay duda que los descubrimientos de las nuevas tierras y la multitud de pueblos llevó a sostener, no sólo entre los frailes, sino entre muchos escritores de la época, la idea de que se estaba viviendo la última etapa del mundo.
Esta premisa es importante porque nos lleva a entender no sólo la urgencia que sintieron nuestros hermanos por la conversión de nuestros pueblos, sino también porque nos explica la libertad con la que nuestros hermanos actuaron en la misión y organización de la iglesia indiana. En páginas posteriores me referiré a la forma concreta como nuestros hermanos implementaron esa utopía.
3 La universalidad de la orden
Otro presupuesto importante para acercarnos a la memoria histórica de la misión franciscana en nuestra América es el de la universalidad de la orden y la función que esta característica tuvo en la expansión misionera de los primeros años. Las visiones históricas, bastante encajonadas, con las que se ha presentado la actividad de la orden en la evangelización de nuestra América nos han hecho perder la dimensión universal con la que se comenzó nuestra presencia en estas tierras. Cuando esta dimensión se redujo a un ámbito muy local –siglos XVII y XVIII- la orden comenzó a perder su fuerza misionera.
El tema de la universalidad de la orden se puede abordar con la procedencia de los primeros franciscanos que se integraron a la misión en América, y su participación de los capítulos generales de
Los contactos de los primeros misioneros con los capítulos generales se pueden apreciar en las cartas que se escriben desde México y Perú en la década de 1530 pidiendo ayuda a la fraternidad universal para la misión en América. Uno de estos casos, todavía poco resaltados, fue el de fray Marcos de Niza que desde Perú escribió al capítulo general de Toulouse celebrado en 1532. En dicho capítulo general resultó electo Comisario general de los franciscanos de España, Francia y Alemania , fray Nicolás Herborn, un fraile alemán que había estado muy interesado en las noticias sobre las tierras recién conquistadas. Con los documentos recibidos de México y Perú escribió una relación sobre los nuevos descubrimientos para invitar a la orden a participar en las misiones. Fray Marcos de Niza se hace presente en ese documento en el idealismo con que se describe la conversión de los peruanos. Dice la relación del padre Herborn que cuando los españoles llegaron a Túmbez (ciudad del norte del Perú) sus habitantes indígenas voluntariamente . . . aceptaron la fe lo que motivó que de inmediato «se trasladara allá un superior franciscano [indudablemente fray Marcos de Niza] con cinco frailes» [Traducción del texto latino] Este párrafo es una versión muy cercana a la que reproduce fray Bartolomé de Las Casas en su Brevísima relación: «Primeramente yo soy testigo de vista . . .que aquellos indios del Perú es la gente más benévola que entre indios haya visto».
Esta visión de fray Marcos de Niza y otros hermanos suyos sobre la forma de evangelizar dejó huella en el Capitulo general de Toulouse. Además del documento mencionado, el padre Herborn escribió un brevísimo tratado sobre la forma de misionar en el que con sugestivas lecturas bíblicas y referencias a los mandatos de la Regla franciscana, indica como deben instruir y tratar a los indígenas. Es un texto clásico que debía circular más entre nosotros. Sus exhortaciones finales nos dan un claro contexto de la difícil situación, que ponía en peligro la predicación evangélica. «Los españoles –escribe- tengan cuidado de no gravar al pueblo con cargas y tributos; de otra manera lo harán rebelde» Y añade, «Puesto que son seres humanos deben ser enseñados y educados humanamente». Esta visión sobre derechos humanos, adelantada en más de cinco siglos a nuestros documentos actuales, e inclusive anterior a la tan citada de Paulo III, ha sido todavía poco aprovechada por nuestros contemporáneos voceros de Justicia y paz.
II PARTE
MOMENTOS LUMINOSOS
1 Acercamiento a las comunidades indígenas
Me gustaría compartir con uds. dos momentos que considero singulares en el acercamiento de los hermanos menores con las comunidades indígenas de la zona central de México.
Fray Jerónimo de Mendieta, uno de los más notables actores en la cristianización de las comunidades nahuas del siglo XVI, nos ofrece este interesante texto sobre uno de los primeros encuentros de los franciscanos con estas comunidades. Nos narra que
Cuando llegaron a esta tierra de las Indias como él [fray Toribio de Benavente] y sus compañeros venían descalzos y con hábitos pobres y remendados, mirándolos así los indios, decían muchas veces este vocablo motolinía, hablándose unos a otros, que en lengua mexicana quiere decir pobre o pobres. Fray Toribio, con el deseo que traía de aprender la lengua de los indios, como les oyese tantas veces aquel vocablo, preguntó que quería decir. Y como le dijeran que quería decir pobre, dijo: “este es el primer vocablo que sé en esta lengua y porque no se me olvide éste será de aquí en adelante mi nombre[5].
Efectivamente, como bien se sabe, fray Toribio usó muy pocas veces su apellido Benavente. Al menos desde 1529 firmó siempre con el nombre de fray Toribio Motolinía. Sin embargo, este idílico relato sobre el primer encuentro de los franciscanos con el mundo indígena se debe comparar con otras narraciones. Una de ellas viene del mismo Motolinía que con particular desasosiego describe sus primeras experiencias en México-Tenochtitlan.
Este franciscano, junto con otros tres compañeros, -entre otros fray Martín de Valencia- tuve como residencia, desde mediados de 1524, una de las antiguas salas del gran centro ceremonial de México-Tenochtitlan, lugar que en documentos de la época se conoce como el “antiguo San Francisco”. Él, junto con sus compañeros fue testigo de las ceremonias religiosas que los tenochcas siguieron practicando en su centro ceremonial. Motolinía describe esas ceremonias en la siguiente forma.
Era esta tierra un traslado del infierno, ver los moradores de ella de noche dar voces, unos llamando a el demonio, otros borrachos otros cantando y bailando; tañían atabales, cornetas y caracoles grandes, especial en las fiestas de sus demonios. Las beoderas que hacían muy ordinarias, es increíble el vino que [en] ellas gastaban, y lo que cada uno en el cuerpo metía. Antes que a su vino lo cuezan con unas raíces que le echan, es claro y dulce como aguamiel. Después de cocido hácese algo espeso, y tiene mal olor, y los que con él se embeodan, mucho peor. Comúnmente comenzaban a beber después de vísperas, y dábanse tanta prisa a beber de diez en diez, o quince en quince, y los escanciadores que no cesaban, y la comida que no era mucha, a prima noche ya van perdiendo el sentido, ya cayendo, ya estando cantando y dando voces llamaban al demonio. Era cosa de gran lástima ver los hombres criados a la imagen de Dios vueltos peores que brutos animales; y lo que era peor que no quedaban en aquel solo pecado, mas cometían otros muchos y se herían y descalabraban unos a otros, y acontecía matarse, aunque fuesen muy amigos y propincuos parientes.
Lo que este texto nos señala es la fuerte perturbación que experimentaron los frailes ante las prácticas religiosas del mundo indígena. Por su parte, los nahuas expresaron con igual franqueza lo aberrante que les parecían las prácticas religiosas de los franciscanos. Diego Muñoz Camargo lo describe en la siguiente manera:
Estos pobres deben ser enfermos o estar locos, dejadlos vocear a los miserables; tomádoles ha su mal de locura; dejadlos estar, que pasen su enfermedad como pudieren, no les hagáis mal, que al cabo estos y los demás han de morir de esta enfermedad de locura, y mirad, si habéis notado, cómo al mediodía, a media noche y al cuarto del alba, cuando todos se regocijan, estos dan voces y lloran. Sin duda alguna es mal grande el que deben de tener porque son hombres sin sentido, pues no buscan placer ni contento, sino tristeza y soledad.[6]
Un texto parecido tenemos sobre los franciscanos de Michoacán:
Cuando vieron los religiosos con sus coronas y así vestidos pobremente y que no querían oro ni plata, espantábanse y, como no tenían mujeres, decían que eran sacerdotes del dios que había venido a la tierra y llamábanlos curitiecha, que eran sus sacerdotes que traían guirnaldas de hilo en las cabezas y unas entradas hechas. Espantábanse cómo no se vestían como los otros españoles y decían: dichosos éstos que no quieren nada.
Después, unos sacerdotes y hechiceros suyos, hiciéronlos encreyente [sic] a la gente que los religiosos eran muertos y que eran mortajas los hábitos que traían y que de noche, dentro de sus casas, se deshacían todos y se quedaban hechos huesos y dejaban allí sus hábitos y que iban allá al infierno donde tenían sus mujeres y que venían a la mañana ... Decían que todos eran unos, los españoles y ellos. Pensaban que ellos se habían nacido así, los frailes con los hábitos, que no habían sido niños.[7]
Estos y otros textos parecidos señalan las enormes distancias entre dos mundos religiosos totalmente diferentes: de un lado el mundo religioso cristiano occidental en su expresión franciscana medieval, claramente representada por los primeros franciscanos, comprometidos por una reforma radical de su orden. Por la parte, encontramos la compleja religión indígena basada en una fuerte relación de la humanidad y el universo de los dioses. Los “detestables sacrificios humanos” que impugnaban los frailes en sus crónicas, para el indígena no eran otra cosa –como bien se sabe- sino la oportunidad de reinstaurar la originaria acción por la cual la vida se hizo realidad en el universo.
¿Era posible un entendimiento entre estos dos mundos religiosos tan separados? Ciertamente, y en la forma menos esperada.
Fray Toribio escribiendo sobre los primeros años de la evangelización narra que hacia 1528 (“en el cuarto año” de su llegada), con motivo de las fuertes lluvias que ese año cayeron en Tezcoco, destrozando las casas y sembradíos de los indígenas, salieron éstos, evidentemente impulsados por los frailes, “con una pobre cruz, y como hubiese muchos días que nunca cesaba de llover, plugo a Nuestro Señor por su clemencia . . . que desde aquel día mismo cesaron las aguas”. Añade el cronista que “dende a poco tiempo comenzaron en Huejotzingo y hicieron muy ricas y galanas mangas de cruces y andas de oro y pluma; y luego por todas partes comenzaron a ataviar sus iglesias y hacer retablos y ornamentos y salir en procesiones y los niños deprendieron danzas para regocijarlas más”